Falar sobre violência de gênero no Brasil é falar de um dos mais persistentes desafios sociais do país. A cada ano, números oficiais expõem um cenário alarmante: mulheres continuam sendo vítimas de agressões físicas, psicológicas, patrimoniais e sexuais, e muitas delas são assassinadas dentro da própria casa, por parceiros ou ex‑parceiros. Diante desse quadro, torna-se evidente que políticas, campanhas e debates restritos exclusivamente às mulheres são insuficientes. É preciso incluir o homem — não como antagonista, mas como parte fundamental da transformação.
A raiz da violência de gênero está em desigualdades estruturais que moldam comportamentos, naturalizam abusos e silenciam vítimas. Essa estrutura, porém, não se sustenta sozinha: ela é alimentada, reproduzida e legitimada por padrões culturais que envolvem toda a sociedade, especialmente os homens.
Ao longo de décadas, programas de proteção e empoderamento feminino foram aprimorados, e ainda precisam ser. Mas há um ponto incontornável: a violência, em grande parte, é praticada por homens. Portanto, não haverá solução duradoura se eles permanecerem ausentes do debate, dos programas de prevenção e de processos educativos amplos e permanentes.
Quando o tema é violência de gênero, costuma-se olhar para o homem sob a ótica da punição, o que é, evidentemente, necessário diante de crimes cometidos. Contudo, limitar a abordagem ao aspecto repressivo impede mudanças culturais profundas.
Integrar o homem à pauta da mulher significa: promover educação emocional desde a infância, rompendo com estereótipos de masculinidade violenta; estimular que homens reconheçam comportamentos abusivos e busquem ajuda; incluir homens em campanhas públicas de prevenção e responsabilização; apoiar grupos reflexivos para autores de violência, previstos na Lei Maria da Penha, como forma de interromper ciclos agressivos e reduzir reincidência e incentivar que homens sejam aliados, atentos a situações de risco e defensores de relações igualitárias. Trata-se, portanto, de um movimento educativo e civilizatório.
É fundamental compreender que a política pública mais eficaz não é a que age após o crime, mas a que impede que ele aconteça. E para que haja prevenção real, é indispensável trabalhar com os agentes sociais que historicamente ocupam posições de poder e influência nas relações de gênero.
Ao incluir o homem no diálogo criam-se oportunidades de reflexão sobre papéis sociais e afetivos, amplia-se a consciência sobre limites, consentimento e respeito, além do fortalecimento de redes de apoio que escapam ao ambiente exclusivamente feminino e reforçar a ideia de que a violência de gênero é um problema da sociedade, não das mulheres.
Integrar homens à pauta da mulher não diminui a luta feminina. Pelo contrário, fortalece-a. Ao assumir responsabilidade na desconstrução de padrões violentos, os homens contribuem para a construção de um ambiente mais seguro, saudável e igualitário para todos.
A violência de gênero é um fenômeno que se sustenta na cultura, e cultura só muda quando todos participam. Por isso, é urgente abandonar a visão de que esse é um problema “de mulheres” e assumir que ele envolve pais, filhos, amigos, colegas de trabalho, lideranças comunitárias e políticas.
É tempo de transformar solidariedade em compromisso, e compromisso em ação. Somente com a participação efetiva dos homens será possível, de fato, romper ciclos de agressão e avançar rumo a uma sociedade mais justa.
Nesse sentido, destaco importante ação desenvolvida em Ponte Nova, sob liderança da juíza, Dra. Dayse Mara Silveira Baltazar e coordenado por sua assessora Carolina R. Cruz. O Projeto Construindo Pontes, alicerçado em práticas de Círculos de Construção de Paz da Justiça Restaurativa acontece por meio de encontros estruturados e dialogados reunindo voluntariamente as pessoas envolvidas em um conflito para, em igualdade de voz, promover compreensão, corresponsabilidade e soluções restaurativas baseadas no respeito e na empatia. Me parece que esse é o caminho!
Por: Dr. Geraldo Jannus